“A socialização é o processo através do qual um cão (ou uma
pessoa) aprende o que a “sociedade” espera dele, e aprende as regras e os
comportamentos que lhe vão permitir tornar-se num membro funcional dessa mesma
sociedade. Para os animais selvagens, isto é mais do que evidente: uma cria de
lobo apenas tem de aprender que é um lobo e depois tem de aprender como deve
agir junto dos outros lobos da sociedade de lobos. Contudo, e uma vez que os
cães são animais domesticados que vivem as suas vidas com os seres humanos, a
sua socialização é mais complicada. Um cão tem de se socializar com outros
cães, a fim de poder aprender que é um cão e como deve funcionar na sociedade
canina, mas tem igualmente de aprender como agir e como comportar-se na sociedade das pessoas.
Os cães devem acolher tanto os outros cães como os humanos ( e ás vezes até os
gatos) como membros aceitáveis da sua família ou da sua matilha.
A importância da socialização dos cães foi primeiramente
demonstrada por John Paul Scott e alguns dos seus associados, incluindo John L.
Fuller. As suas pesquisas realizaram-se no Jackson Memorial Laboratory, em Bar
Harbor, no Maine, e prolongaram-se durante 13 anos. Foram então reunidas num
livro intitulado A Genética e o
Comportamento Social do Cão, cuja escrita foi direccionada a um público
científico, não sendo pois, e infelizmente, de leitura fácil para a maior parte
dos donos de cães.
Scott verificou que existe uma janela temporal que surge
muito cedo, durante a qual é crucial que o cachorrinho mantenha contacto
adequado com os cães e com as pessoas. Se não existirem suficientes interacções
socias deste tipo, poderão surgir os problemas de medo e agressividade que
serão muito difíceis de corrigir mais tarde. Semelhantemente, parte do processo
de aprendizagem de adaptação ao mundo implica uma exposição a diferentes
lugares, objectos e acontecimentos.
Scott foi o investigador do comportamento canino mais
relevante do século XX, e merece ser tão conhecido do público como Sigmund
Freud e B.F.Skinner. As suas descobertas incluem a destrinça entre a
agressividade social competitiva (por causa de um item valorizado) e a
agressividade social com base no desejo de domínio (competir para obter posição
hierárquica mais elevada na matilha). Ele forneceu as primeiras descrições de
vários problemas do comportamento canino, incluindo a ansiedade da separação.
Foi ele até quem cunhou o termo sociobiologia, para descrever o campo
científico que ele próprio estava a observar – nomeadamente, o estudo do comportamento social
dos animais e dos seres humanos, e de que forma isso se relaciona com a
genética, a experiência adquirida cedo e a sobrevivência das espécies.
Scott não pareceu deixar-se afectar pela falta de
reconhecimento público por estes seus êxitos. Ele explicou, descontraidamente: “Muito
daquilo que realizei foi sendo aceite como `senso comum´. Ninguém se apercebe
de que teve de haver alguém que documentasse certos factos tão básicos, como quando
os cachorrinhos abrem os olhos pela primeira vez. Alguém teve de reparar que os
comportamentos sociais dos cachorros para com as pessoas ou outros cães não vêm
completamente integrados nos seus genes, e que os cachorros têm de ser
ensinados a interagir com os outros. Na verdade, acaba por ser gratificante que
hoje tantas pessoas estejam tão familarizadas com os meus resultados, mesmo que
não saibam quem foi que primeiramente os registou.”
É assim que a ciência funciona. Por vezes, o nome do
investigador perde-se quando os resultados das suas pesquisas se espalham tanto
e são tão bem aceites.
O nome que se tornou mais conhecido na socialização dos cães
foi o de Ian Dunbar, um veterinário com um doutoramento em Psicologia, que
transformou todas as descobertas científicas em procedimentos práticos. Disse
Ian Dunbar certa ocasião: “Ainda me consigo ver sentado em plena bibiloteca do
Real Colégio de Veterinária de Londres, enquanto lia A Genética e o Comportamento Social do Cão, de Scott e Fuller.
Chamou-me a atenção e eu pensei: ´Este é o género de trabalho que eu também
quero fazer`. Eu não seria quem sou hoje se não fosse Scott.”
Dunbar haveria de estabelecer as linhas orientadoras para a
socialização dos cachorrinhos e de introduzir o conceito das aulas de
infantário para cachorros, que têm muito mais que ver com a socialização do que
com o treino dos cães mais jovens. Ele
recomenda que cada cachorrinho deveria encontrar-se com, no mínimo 200 pessoas
diferentes e ser levado a, pelo menos, 50 lugares distintos antes de chegar aos
seis meses.”
Stanley Coren
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