sábado, 30 de março de 2013

A importância da Socialização: John Scott a Ian Dunbar


“A socialização é o processo através do qual um cão (ou uma pessoa) aprende o que a “sociedade” espera dele, e aprende as regras e os comportamentos que lhe vão permitir tornar-se num membro funcional dessa mesma sociedade. Para os animais selvagens, isto é mais do que evidente: uma cria de lobo apenas tem de aprender que é um lobo e depois tem de aprender como deve agir junto dos outros lobos da sociedade de lobos. Contudo, e uma vez que os cães são animais domesticados que vivem as suas vidas com os seres humanos, a sua socialização é mais complicada. Um cão tem de se socializar com outros cães, a fim de poder aprender que é um cão e como deve funcionar na sociedade canina, mas tem igualmente de aprender como agir  e como comportar-se na sociedade das pessoas. Os cães devem acolher tanto os outros cães como os humanos ( e ás vezes até os gatos) como membros aceitáveis da sua família ou da sua matilha.
A importância da socialização dos cães foi primeiramente demonstrada por John Paul Scott e alguns dos seus associados, incluindo John L. Fuller. As suas pesquisas realizaram-se no Jackson Memorial Laboratory, em Bar Harbor, no Maine, e prolongaram-se durante 13 anos. Foram então reunidas num livro intitulado A Genética e o Comportamento Social do Cão, cuja escrita foi direccionada a um público científico, não sendo pois, e infelizmente, de leitura fácil para a maior parte dos donos de cães.
Scott verificou que existe uma janela temporal que surge muito cedo, durante a qual é crucial que o cachorrinho mantenha contacto adequado com os cães e com as pessoas. Se não existirem suficientes interacções socias deste tipo, poderão surgir os problemas de medo e agressividade que serão muito difíceis de corrigir mais tarde. Semelhantemente, parte do processo de aprendizagem de adaptação ao mundo implica uma exposição a diferentes lugares, objectos e acontecimentos.
Scott foi o investigador do comportamento canino mais relevante do século XX, e merece ser tão conhecido do público como Sigmund Freud e B.F.Skinner. As suas descobertas incluem a destrinça entre a agressividade social competitiva (por causa de um item valorizado) e a agressividade social com base no desejo de domínio (competir para obter posição hierárquica mais elevada na matilha). Ele forneceu as primeiras descrições de vários problemas do comportamento canino, incluindo a ansiedade da separação. Foi ele até quem cunhou o termo sociobiologia, para descrever o campo científico que ele próprio estava a observar  – nomeadamente, o estudo do comportamento social dos animais e dos seres humanos, e de que forma isso se relaciona com a genética, a experiência adquirida cedo e a sobrevivência das espécies.
Scott não pareceu deixar-se afectar pela falta de reconhecimento público por estes seus êxitos. Ele explicou, descontraidamente: “Muito daquilo que realizei foi sendo aceite como `senso comum´. Ninguém se apercebe de que teve de haver alguém que documentasse certos factos tão básicos, como quando os cachorrinhos abrem os olhos pela primeira vez. Alguém teve de reparar que os comportamentos sociais dos cachorros para com as pessoas ou outros cães não vêm completamente integrados nos seus genes, e que os cachorros têm de ser ensinados a interagir com os outros. Na verdade, acaba por ser gratificante que hoje tantas pessoas estejam tão familarizadas com os meus resultados, mesmo que não saibam quem foi que primeiramente os registou.”
É assim que a ciência funciona. Por vezes, o nome do investigador perde-se quando os resultados das suas pesquisas se espalham tanto e são tão bem aceites.
O nome que se tornou mais conhecido na socialização dos cães foi o de Ian Dunbar, um veterinário com um doutoramento em Psicologia, que transformou todas as descobertas científicas em procedimentos práticos. Disse Ian Dunbar certa ocasião: “Ainda me consigo ver sentado em plena bibiloteca do Real Colégio de Veterinária de Londres, enquanto lia A Genética e o Comportamento Social do Cão, de Scott e Fuller. Chamou-me a atenção e eu pensei: ´Este é o género de trabalho que eu também quero fazer`. Eu não seria quem sou hoje se não fosse Scott.”
Dunbar haveria de estabelecer as linhas orientadoras para a socialização dos cachorrinhos e de introduzir o conceito das aulas de infantário para cachorros, que têm muito mais que ver com a socialização do que com o treino dos cães mais jovens.  Ele recomenda que cada cachorrinho deveria encontrar-se com, no mínimo 200 pessoas diferentes e ser levado a, pelo menos, 50 lugares distintos antes de chegar aos seis meses.”

Stanley Coren

Sem comentários:

Enviar um comentário